Uma leitura prática para quem confunde conflito emocional com crise espiritual
“Estou passando por uma grande provação.”
“Algo está me impedindo.”
“Nada flui.”
Essas frases são recorrentes e, na maioria das vezes, ditas com sinceridade, pois elas expressam sofrimento real. No entanto, nem sempre indicam um evento externo, um ataque invisível ou uma força que age de fora para dentro. Muitas vezes, essas falas descrevem um estado interno desorganizado, ou seja, marcado por exaustão emocional, reatividade acumulada ou dificuldade de lidar com frustração e limites.
Quando a pessoa não reconhece esse estado interno, ela passa a nomear o desconforto com categorias que não correspondem à origem do problema. A experiência é real, mas a leitura é imprecisa. E é aí que o conflito começa a se aprofundar.
Este texto não é para discutir fé, crença ou espiritualidade, mas sim, para te ajudar a discernir na prática o espiritual do emocional.
Passo 1 — Pare de interpretar e observe
O erro começa quando você tenta entender rápido demais o sofrimento que está passando. Antes de dar nome ao que está acontecendo, pare e observe primeiramente o corpo:
- Como está o seu corpo?
- Você está cansado, tenso, irritado, sobrecarregado?
- Isso começou depois de conflitos, excesso, frustração ou acúmulo?
Regra prática: Se você ainda não observou o seu estado emocional quando passa por algum problema, não tire conclusões espirituais.
Passo 2 — Escute a linguagem da sua mente
Preste atenção nas frases que se repetem dentro de você. Quando é emocional, a mente costuma falar assim:
- “eu falhei”
- “nada dá certo”
- “algo está errado comigo”
- “isso nunca vai mudar”
Portanto, esta linguagem é urgente, acusatória, repetitiva, confusa.
Sinal importante: Quando a mente grita, acusa e pressiona, não é discernimento espiritual. É emoção tentando descarregar.
Passo 3 — Veja o efeito que isso está produzindo em você
Faça uma pergunta simples:
O problema que estou passando agora está me deixando mais lúcido ou mais confuso?
O emocional desorganizado geralmente produz:
- culpa difusa,
- paralisia,
- oscilação de humor,
- vontade de sumir, se isolar ou endurecer.
Por outro lado, o discernimento espiritual verdadeiro, mesmo quando confronta:
- traz clareza
- chama à responsabilidade
- organiza
- não fragmenta
Regra prática: Se a experiência te quebra por dentro, te endurece ou te paralisa, não é espiritual — é emocional.
Passo 4 — Observe o tempo da urgência
Observe se você está com urgência em resolver seu problema. O emocional não tolera espera, pois quer resposta imediata, decisão rápida, alívio urgente.
O espiritual, quando é legítimo:
- suporta processos,
- amadurece no tempo,
- não exige resposta impulsiva.
Regra prática: Tudo que exige decisão imediata sob pressão quase sempre é emocional, não espiritual.
Passo 5 — Veja se isso te leva à fuga ou ao aprofundamento
Quando a confusão acontece, observe o movimento que surge. Se isso te leva a, por exemplo:
- justificar afastamento,
- evitar conversas difíceis,
- se fechar emocionalmente,
- endurecer posturas,
- acreditar que é “prova espiritual”.
Há confusão emocional sendo espiritualizada. O discernimento verdadeiro sempre leva a assumir responsabilidade, rever postura, reorganizar escolhas.
Espiritualidade não justifica fuga.
Passo 6 — Faça a pergunta que revela tudo
Antes de lutar, pergunte com honestidade:
Isso que estou vivendo me torna mais consciente, responsável e integrado ou apenas mais culpado, confuso e fechado?
Essa pergunta não acusa, mas organiza.
Se a sua resposta apontar para culpa, confusão e rigidez, pare de chamar isso de espiritual. Comece a cuidar do emocional.
Como evitar essa confusão no dia a dia
Evitar essa confusão não exige grandes mudanças, mas pequenas escolhas diárias. Portanto, são atitudes simples que ajudam a organizar o emocional antes de dar nomes maiores ao que você está vivendo.
- Não interprete emoção no auge dela.
- Não tome decisões quando estiver reativo.
- Não use linguagem espiritual para evitar olhar sentimentos.
- Dê nome ao cansaço antes de chamar de “provação”.
- Organize o emocional antes de buscar sentido maior.
Discernimento começa com honestidade interna, não com combate.
Conclusão — menos guerra, mais clareza
Por fim, nem tudo que dói é ataque, nem como nem tudo que pesa é prova. E nem tudo que trava é espiritual. Muitas vezes, é apenas você precisando se reorganizar por dentro.
Quando você aprende a separar o emocional do espiritual, a vida fica mais simples. Não porque os problemas somem — mas porque você para de lutar contra o que não é inimigo.
E a espiritualidade, então, deixa de ser fuga e passa a ser presença consciente na própria vida.
Renata Nascimento – Ontoanalista em Formação
(Do InMente ao InMundo)
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