Quem você é quando o trabalho para? Você já teve a sensação de que sua vida virou só trabalho?

Não necessariamente porque você ama demais o que faz, mas porque fora dele parece não sobrar nada. Quando a agenda esvazia, algo aperta. Quando chega um tempo livre, vem um desconforto estranho. E quando você tenta descansar, a mente acelera.

Talvez você nunca tenha parado para formular assim, mas a pergunta existe: quem sou eu quando não estou trabalhando?

Muita gente não sabe a respostae segue funcionando mesmo assim.

O trabalho continua, mas você começa a desaparecer

Você entrega, resolve, cumpre, dá conta. Do lado de fora, tudo parece normal. Mas, por dentro, surge uma sensação difícil de explicar:

  • vazio mesmo estando ocupada(o),
  • cansaço que não melhora com folga,
  • irritação quando alguém “toma seu tempo”,
  • desconforto quando não há tarefa para cumprir,
  • sensação de inutilidade ao parar.

O trabalho segue funcionando, mas você fica para trás. Isto não acontece porque você é fraco, mas sim porque o fazer tomou o lugar do ser.

Quando o trabalho vira identidade

No começo, trabalhar dá sentido. Depois, dá estrutura. Em algum momento, vira o único lugar onde você ainda se reconhece. Você passa a se definir assim, por exemplo:
“Eu sou meu trabalho”, “eu sou o que eu entrego”, “eu valho pelo que produzo”.

Sem perceber, sua identidade começa a depender do desempenho.

Então surgem dores muito específicas, e muito comuns, como:

  • medo de desacelerar,
  • culpa ao descansar,
  • dificuldade de dizer “não”,
  • sensação de estar sempre devendo algo,
  • angústia quando não está sendo útil.

Não é excesso de tarefas, mas fusão entre valor pessoal e produtividade.

“Se eu parar, tudo desanda, e eu também”

Uma das dores mais silenciosas desse processo é a ideia de que parar é perigoso.

Perigoso porque:

  • você pode perder espaço,
  • pode decepcionar alguém,
  • pode parecer fraco,
  • pode “ficar para trás”.

Mas existe outro medo, menos falado: “Se eu parar, talvez eu perceba que não sei mais quem sou.”

Por isso, muita gente prefere continuar cansada do que encarar o vazio. Pois o trabalho vira abrigo, e também prisão.

Sinais de que o trabalho está engolindo quem você é

Quando o trabalho começa a ocupar espaço demais, ele não chega pedindo licença. Ele se mistura à identidade, toma o centro da vida e vai apagando, aos poucos, outras partes de quem você é: interesses, vínculos, prazer, descanso, silêncio.

Esses sinais não surgem como uma “crise” clara. Eles aparecem no cotidiano, nos pensamentos automáticos, na relação com o tempo livre e na forma como você mede o próprio valor. Talvez você se reconheça em alguns desses pontos:

  • você só se sente válido quando está ocupado,
  • o descanso vem acompanhado de culpa,
  • o fim de semana dá ansiedade,
  • você evita silêncio e tempo livre,
  • sua vida pessoal foi ficando sem cor,
  • tudo gira em torno de desempenho.

Nada disso aparece como “crise”, pois é funcional, silencioso e socialmente elogiado. Porém, custa caro por dentro.

Pequenos resgates de si (sem abandonar tudo)

Recuperar quem você é não exige largar o trabalho, mas exige parar de desaparecer dentro dele. Alguns resgates são possíveis, como por exemplo:

  • lembrar do que te interessava antes de tudo virar obrigação,
  • fazer algo sem finalidade produtiva,
  • permitir-se não render o tempo todo,
  • separar “tempo de trabalho” de “tempo de vida”,
  • perceber quando o cansaço é identitário, não físico.

Esses gestos não resolvem tudo, mas devolvem algo essencial: presença de si.

Limites práticos que não sabotam sua vida

Limite não é radical, mas estrutural.

Simples exemplos, como:

  • encerrar o dia sem “só mais um e-mail”,
  • não ocupar todo espaço com tarefa,
  • aceitar que descansar não precisa ser merecido,
  • não transformar cada momento em obrigação.

Quando você cria limites, o trabalho deixa de engolir tudo. Aos poucos, você começa a se voltar para si.

Conclusão

Se o trabalho anda ocupando todo o espaço da sua vida, talvez o problema não seja falta de força,
nem de foco, nem de disciplina. Talvez seja só um pedido simples e profundo: volte a existir fora do que você faz. Você não é só função, nem só desempenho, muito menos só entrega.

Trabalhar faz parte da vida. Mas viver não pode caber só no trabalho.

Renata Nascimento – Ontoanalista em Formação

(Do InMente ao InMundo)


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Como Performar Sem se Esgotar?

NR-1: Sete Sinais Físicos de Que Seu Trabalho Está Te Adoecendo

NR-1 e Saúde Mental: O Que Muda Para Quem Está Exausto no Trabalho

Leitura externa:

Burnout e Identidade: Quando Você Vira Apenas a Função

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