Você Pode Estar Produzindo Muito e Vivendo Pouco

Frase-foco: produzindo muito e vivendo pouco

Tem gente que produz muito e, ainda assim, sente um vazio difícil de explicar. O dia rende, as tarefas saem, as metas avançam. No entanto, ao final, fica a sensação de que a vida não aconteceu de verdade. Não é falta de resultado. É falta de presença.

Se você já pensou “sou produtivo mas me sinto vazio”, “trabalho muito e não sinto prazer” ou “nada parece suficiente”, é provável que esteja vivendo um tipo específico de desgaste: aquele em que a rotina funciona, mas a vitalidade não acompanha.

Este texto é para quem percebe que está produzindo muito e vivendo pouco, mesmo sendo competente, responsável e disciplinado.


Produção sem vitalidade

Produzir sem vitalidade é quando o fazer continua, mas a experiência interna desaparece. Você cumpre o que precisa cumprir, resolve o que aparece, entrega o que esperam. Ainda assim, sente que está sempre atrasado por dentro, como se não tivesse tempo para existir de verdade.

A vida se organiza em torno do que precisa ser feito. O problema é que, nesse modelo, quase tudo vira tarefa. Até o descanso vira “coisa para cumprir”, e o prazer vira algo que fica para depois.

Com o tempo, você pode começar a perceber um padrão:

  • você termina uma tarefa e já pensa na próxima;
  • você conclui um dia e já antecipa o dia seguinte;
  • você comemora rápido e volta ao modo desempenho;
  • você se cobra mesmo quando fez o suficiente.

Por isso, não é que você esteja parado. Você está em movimento constante. Entretanto, esse movimento pode estar desconectado de você.

E quando a presença sai do centro, a produção se mantém, mas a vida perde densidade.


Normalização do vazio

O vazio raramente aparece como um grande drama. Na maioria das vezes, ele entra pela rotina. Você se acostuma a funcionar sem sentir; prende a seguir mesmo sem prazer; vira alguém que entrega, mas não vive.

Além disso, surge uma justificativa silenciosa: “é assim mesmo”. A vida adulta vira sinônimo de peso. A disciplina vira sinônimo de rigidez. O cansaço vira sinônimo de maturidade.

Só que, quando isso se torna normal, você para de perceber o que está acontecendo. Você não nota a perda de vitalidade porque está ocupado demais mantendo tudo em pé.

Nesse ponto, a frase “produzindo muito e vivendo pouco” deixa de parecer exagero e começa a descrever sua experiência diária com precisão.

Alguns sinais comuns dessa normalização:

  • você faz muito, mas sente pouco;
  • você tem tempo livre, mas não sabe o que fazer com ele;
  • você descansa, porém não recupera;
  • você cumpre metas, mas não sente satisfação real;
  • você se sente culpado quando não está produzindo.

Isso não significa que sua vida está errada. Significa que seu modo de funcionamento pode estar sem eixo interno.


Por que o sucesso não preenche

O sucesso não preenche quando ele não é vivido por dentro. Ele pode trazer alívio momentâneo, reconhecimento, estabilidade. Porém, se você chega em cada conquista com o corpo cansado e a mente em alerta, você não experimenta a conquista. Você apenas passa por ela.

Além disso, o sucesso pode virar um lugar perigoso quando se transforma em identidade. Você deixa de ser alguém que produz e passa a ser “o produtivo”. Aí, qualquer pausa parece ameaça. Qualquer limite parece fraqueza. E qualquer descanso parece perda.

Por isso, mesmo quando você está indo bem, surge a sensação de que nada parece suficiente. Porque o critério interno não está baseado em presença. Está baseado em exigência.

E quando a exigência é o centro, sempre falta alguma coisa.

Nesse ponto, a pessoa diz:

  • “eu deveria estar feliz, mas não estou”
  • “eu consegui, mas não senti nada”
  • “eu trabalhei tanto e ainda parece pouco”

Esse é o custo invisível da performance sem presença.


Reencaixar presença no cotidiano

Reencaixar presença não significa abandonar produtividade. Significa devolver vida ao que já está sendo feito. E isso começa com ajustes pequenos, concretos e repetíveis.

1) Finalizar uma coisa antes de abrir outra

Em vez de terminar uma tarefa já pensando na próxima, faça uma transição simples: feche o arquivo, levante, beba água, respire por alguns segundos. Parece pouco, mas isso interrompe o automático.

2) Criar microintervalos sem estímulo

Um minuto sem celular, sem conteúdo e olhando pela janela. O objetivo não é meditar. É sinalizar ao corpo que ele não precisa correr o tempo todo.

3) Recuperar critério: o suficiente existe

Pergunte a si mesmo, pelo menos uma vez ao dia: “o que já foi suficiente hoje?” Se essa pergunta nunca aparece, a vida vira uma esteira. E na esteira, você produz, mas não vive.

4) Dar nome ao que está faltando

Nem sempre é descanso. Às vezes, é sentido, presença ou mesmo autonomia. Nomear o que falta devolve direção.

Ao praticar isso, você começa a sair do modo repetição. E quando o modo repetição diminui, a vida volta a ser habitada.

Porque o problema não é produzir muito. O problema é estar produzindo muito e vivendo pouco.


Conclusão

Se você é produtivo, mas se sente vazio, não conclua que está ingrato ou quebrado. Em muitos casos, isso é apenas o sinal de que a sua vida está funcionando sem você estar dentro dela.

Trabalhar muito e não sentir prazer não é falta de capacidade. É falta de presença sustentando o que você faz. E quando a presença retorna, o sucesso deixa de ser apenas meta e volta a ser experiência.

Você não precisa largar tudo. Precisa reencaixar você mesmo no seu cotidiano.

Renata Nascimento – Ontoanalista em Formação

(Do InMente ao InMundo)


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