Quando “estar lenta” não é o problema

Em algum momento, muita gente começa a se perceber diferente. As tarefas demoram mais, a concentração oscila e decisões simples parecem exigir esforço excessivo. Logo surge o pensamento automático: “estou lenta”, “estou rendendo menos”, “tem algo errado comigo”.

No entanto, nem sempre essa sensação tem relação com lentidão real. Na maioria das vezes, o que existe é exaustão emocional e perda de ritmo interno.

O problema não é que você esteja devagar demais. É que está tentando funcionar em um ritmo que não consegue mais sustentar.

Lentidão não é o mesmo que exaustão

Existe uma diferença importante entre ser lenta e estar exausta. A lentidão, em si, não é negativa. Ela pode indicar cuidado, atenção ou profundidade. Já a exaustão mental é outra coisa. Ela surge quando a mente passa tempo demais em estado de alerta, antecipação ou cobrança.

Quando há exaustão, aparecem sintomas comuns e buscáveis, como:

  • dificuldade de concentração
  • sensação de cansaço mesmo após descanso
  • perda de clareza mental
  • procrastinação sem prazer
  • sensação de não conseguir acompanhar

Nesses casos, forçar velocidade não resolve. Pelo contrário, aumenta o desgaste e a frustração.

O que te tira do ritmo (e você nem percebe)

Perder o ritmo interno não acontece de uma vez. É um processo silencioso. Pequenos hábitos, quando repetidos, vão deslocando o eixo da vida para fora.

Entre os fatores mais comuns estão:

  • excesso de estímulos logo ao acordar,
  • comparação constante com o ritmo dos outros,
  • tentar resolver tudo ao mesmo tempo,
  • ausência de pausas reais,
  • sensação permanente de urgência.

Aos poucos, a mente deixa de seguir um compasso próprio e passa a responder apenas às demandas externas. Quando isso acontece, surge a sensação de estar sempre atrasada, mesmo sem saber exatamente em relação a quê.

Ritmo não é velocidade. É continuidade.

Uma das maiores confusões do dia a dia é acreditar que progresso exige correr. Na prática, progresso sustentável exige continuidade com sentido.

Ritmo é aquilo que você consegue manter sem se quebrar. É o compasso que respeita seus limites e, ao mesmo tempo, permite avanço. Quando o ritmo se perde, até pequenas tarefas parecem montanhas.

Recuperar o ritmo não é acelerar. É reorganizar o dia para voltar a se mover com menos atrito interno.

Dois ajustes simples: manhã e tarde

Não é preciso mudar tudo para sentir diferença. Dois ajustes diários já ajudam a restaurar o ritmo.

Ajuste da manhã: começar com eixo

Em vez de iniciar o dia já respondendo ao mundo, experimente começar com uma única prioridade clara. Pergunte-se: “o que realmente importa hoje?”.

Evitar múltiplas decisões logo cedo reduz a sobrecarga mental. Isso ajuda a mente a entrar em movimento sem tensão.

Ajuste da tarde: reduzir o peso

À tarde, a energia naturalmente cai. Forçar desempenho nesse horário costuma gerar mais cansaço emocional. Um ajuste simples é reduzir expectativas e focar em tarefas mais mecânicas ou de fechamento.

Esse movimento preserva energia e evita a sensação de fracasso no fim do dia.

Como sentir progresso sem correr

Sentir progresso não depende de quantidade, mas de coerência entre esforço e resultado. Quando você avança no próprio ritmo, mesmo passos pequenos geram satisfação.

Alguns sinais de progresso saudável:

  • menos ansiedade ao longo do dia,
  • maior clareza nas decisões,
  • sensação de presença no que faz,
  • menos culpa ao descansar.

Esses sinais indicam que o ritmo está sendo restaurado, mesmo que o volume de tarefas não seja alto.


O erro de se cobrar quando o corpo pede ajuste

Quando o corpo e a mente desaceleram, a tendência é se cobrar ainda mais. No entanto, essa cobrança geralmente piora o quadro. Exaustão não se resolve com exigência.

Na visão aplicada da Ontoanálise, o ritmo saudável surge quando o ser volta a conduzir a experiência, em vez de apenas reagir às pressões externas. Isso não elimina responsabilidades, mas muda a forma de sustentá-las.


Conclusão

Você não está lenta. Está cansada de funcionar sem ritmo.

Recuperar o ritmo não exige pressa, nem desempenho máximo. Exige escuta, ajuste e continuidade. Quando o ritmo interno retorna, a energia se reorganiza e o progresso deixa de ser um peso.

Andar no próprio compasso não é desistir.
É a única forma de continuar sem se perder.

Renata Nascimento – Ontoanalista em formação


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