Em teoria, descansar deveria aliviar. Na prática, para muitas pessoas, parar gera ansiedade. Quando o corpo desacelera, a mente acelera. Surge inquietação, culpa e uma sensação estranha de que algo está errado.
Você se senta para descansar, mas logo pensa que deveria estar fazendo algo útil. Quando deita, lembra de tarefas pendentes. Quando tenta relaxar, sente tensão. O descanso, que deveria recuperar, passa a incomodar.
Isso não acontece por preguiça ou falta de disciplina. Na maioria das vezes, acontece porque a mente foi treinada para funcionar o tempo todo. Parar virou sinônimo de falhar, atrasar ou perder controle.
Assim, o descanso deixa de ser um direito e passa a parecer uma ameaça.
Culpa e autocobrança silenciosa
Por trás da dificuldade de descansar, quase sempre existe autocobrança excessiva. Mesmo quando ninguém está exigindo nada, a cobrança continua ativa por dentro.
A mente repete frases como:
“Eu poderia estar produzindo mais.”
“Não fiz o suficiente hoje.”
“Descansar agora é exagero.”
Esses pensamentos não surgem do nada. Eles são resultado de um padrão interno em que valor pessoal foi associado ao desempenho constante. Quanto mais você faz, mais válido se sente. Quando para, a identidade treme.
Por isso, descansar ativa culpa. Não porque você esteja errado, mas porque o descanso confronta um sistema interno que só se sente seguro em movimento.
Enquanto essa lógica não é percebida, o descanso nunca é pleno. Mesmo parado, você continua em alerta.
Quando o corpo para, mas a mente não
Outro ponto importante é que muitas pessoas confundem parar com descansar. Você pode até interromper atividades externas, mas internamente continua funcionando.
O corpo senta. A mente revisa o dia.
O corpo deita. A mente antecipa amanhã.
Isso gera um tipo específico de cansaço: o cansaço mental que não se resolve com sono. A pessoa dorme, mas acorda cansada. Descansa, mas não se recupera.
Isso acontece porque o sistema interno não aprendeu a encerrar ciclos. Ele permanece aberto, revisando, antecipando, corrigindo.
Sem encerramento, não há repouso real.
Descanso curto e real
No InMente, não falamos de longos retiros ou mudanças drásticas. Falamos de descanso possível, curto e real.
Descansar não exige horas livres. Exige interrupções conscientes. Pequenas pausas em que você realmente sai do modo execução.
Alguns exemplos simples:
parar cinco minutos sem estímulo algum,
fechar os olhos e respirar sem objetivo,
sentar sem usar o celular,
ficar em silêncio entre uma tarefa e outra.
Esses momentos parecem pequenos, mas são poderosos. Eles ensinam ao sistema interno que parar é seguro.
Com o tempo, o corpo aprende que não precisa permanecer em alerta constante. E a ansiedade começa a diminuir.
Ritual de encerramento do dia
Um dos motivos pelos quais descansar gera ansiedade à noite é a ausência de fechamento. O dia termina, mas internamente ele continua aberto.
Criar um ritual simples de encerramento ajuda muito. Não precisa ser nada elaborado. O importante é marcar, para a mente, que o dia acabou.
Algumas práticas possíveis:
anotar tudo o que ficou pendente para o dia seguinte,
organizar o ambiente antes de parar,
desligar estímulos aos poucos,
escolher um horário fixo para encerrar atividades,
evitar decisões importantes à noite.
Esse ritual não resolve a vida. Mas resolve o dia. E isso já é suficiente para permitir descanso.
Quando o dia é encerrado, o corpo entende que pode soltar.
Descansar sem precisar merecer
Talvez o ponto mais importante seja este: descanso não é recompensa. Descanso é necessidade.
Enquanto você acredita que precisa merecer descansar, o descanso sempre virá acompanhado de ansiedade. Afinal, a sensação de nunca ter feito o suficiente é constante.
Descansar não significa desistir, abandonar ou relaxar demais. Significa preservar energia para continuar.
Quando você começa a descansar sem negociar consigo mesmo, algo muda. A mente resiste no início, mas aos poucos aprende que o mundo não desmorona quando você para.
E, paradoxalmente, quando o descanso se torna possível, a produtividade melhora. Não porque você se esforçou mais, mas porque deixou de se desgastar inutilmente.
Conclusão
Se descansar te deixa ansioso, o problema não está no descanso. Está no sistema interno que aprendeu a funcionar sem pausa.
A ansiedade ao parar não é sinal de fraqueza. É sinal de excesso de cobrança, de ciclos mal encerrados e de uma mente que não sabe mais repousar.
No InMente, o caminho não é fazer menos à força, mas aprender a parar sem culpa. Começar pequeno, fechar o dia e devolver ao descanso o lugar que ele nunca deveria ter perdido.
Descansar não deveria dar ansiedade. Deveria devolver você a si mesmo.
Renata Nascimento – Ontoanalista em Formação
(Do InMente ao InMundo)
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