Há momentos em que a mente parece não se calar. Pensamentos se atropelam, questionam, criticam, julgam — e, antes que você perceba, já está dentro de um turbilhão. “E se der errado?” “Por que eu disse aquilo?” “E se eu não conseguir?” . A mente cria cenas, diálogos e preocupações que muitas vezes nem chegam a acontecer.
Mas existe um ponto de virada silencioso e profundo: você não é o seu pensamento. Você é quem observa o pensamento. Essa distinção simples, mas transformadora, é o início da libertação. Quando você se dá conta disso, o pensamento deixa de ser um inimigo e volta a ser o que sempre foi — apenas uma ferramenta da consciência.
A mente fala alto, mas o ser fala no silêncio.
Pensamentos não são inimigos — só não podem ser mestres
Pensar é natural. O problema surge quando você acredita que tudo o que pensa é verdade. A mente interpreta, exagera e cria narrativas para tentar entender o mundo. Ou seja, cria ilusões. Consequentemente, te aprisiona em medos e repetições, pela simpels tentativa de te proteger.
Na Ontoanálise, esse fenômeno é chamado de identificação mental: é quando o ser deixa de observar a mente e passa a se confundir com ela. O resultado é a perda da presença — o foco se dissolve, o corpo se tensiona, e a vida parece escapar pelos vãos da atenção. Contudo, há uma saída: observar sem reagir. Quando você se coloca como testemunha do pensamento, algo muda. Surge um espaço entre você e o seu pensamento. É nesse espaço que o ser respira.
Você percebe: “isso é apenas medo”, “isso é só ansiedade tentando me avisar”, “isso é um pensamento, não a verdade”. Aos poucos, o peso desaparece.
O poder de observar sem se confundir
Libertar-se da mente não é calá-la à força, nem se irritar porque não consegue se livrar de pensamentos indesejados. Libertar-se é aprender a ouvir sem se perder no que ela diz. O pensamento é como uma onda: ele se forma, alcança um pico, e naturalmente se desfaz. Quando você observa em vez de reagir, o ciclo se completa sem sofrimento.
Por isso, pratique o olhar silencioso: não tente mudar o conteúdo dos pensamentos, mude sua postura diante deles. Olhe com curiosidade, não com medo. Compreenda que a mente fala, mas não define quem você é. Com o tempo, você perceberá que os pensamentos continuam a surgir — porém já não têm poder sobre você. A consciência desperta aprende a escutar o pensamento como quem escuta o vento: presente, mas livre.
A mente acelerada precisa de pausas conscientes
O ritmo da vida moderna estimula a mente a correr o tempo todo. São notificações, metas, compromissos e comparações que alimentam a aceleração interior. Entretanto, a clareza não nasce da pressa, e sim do silêncio. Por isso, faça pausas curtas ao longo do dia. Não é necessário parar por horas, mas respirar com presença por alguns instantes. Quando o corpo respira com consciência, o pensamento perde força.
Além disso, o simples ato de observar o fluxo mental cria espaço interno. Nesse intervalo, a mente se reorganiza, a emoção se equilibra e o ser retoma o comando.
O pensamento é o som da mente; o silêncio é a voz do ser.
Essas pausas não são fugas — são retornos. Retornos ao ponto onde tudo começa: o centro da consciência.
Usar a mente sem se tornar prisioneiro dela
A mente é uma das expressões mais poderosas da existência. Graças a ela, você planeja, cria, escreve e transforma ideias em realidade. O problema é esquecer que ela é um instrumento, e não o maestro. Quando você acredita em tudo o que pensa, reage ao comando dela e perde o domínio sobre ela. Mas quando você apenas a observa, retoma o comando e passa a realizar escolhas. Escolher é o verdadeiro ato de liberdade.
Usar a mente conscientemente significa pensar quando é preciso e silenciar quando é sábio. Assim, o pensamento se torna parceiro da intuição e não seu sabotador.
Conclusão – a consciência que observa é o início da liberdade
A mente é uma ferramenta preciosa, mas só quando o ser desperta para observá-la é que ela revela sua verdadeira utilidade. Quando você percebe que não é o pensamento, mas a consciência que o observa, algo profundo acontece: o ruído perde autoridade.
Você deixa de ser arrastado pelas ideias e passa a ser quem as escolhe. Nesse instante, o pensar se torna um ato consciente, não um reflexo automático. A libertação não está em silenciar a mente, mas em habitar o espaço silencioso que existe antes de cada pensamento. É nele que nasce a clareza, a intuição e a presença lúcida — o estado em que o ser age sem se perder no que sente ou imagina.
Ser livre é pensar sem se aprisionar no que se pensa. E é justamente aí que a vida recupera o seu ritmo natural: sereno, consciente e pleno.
Renata Nascimento – Ontoanalista em Formação
(Do InMente ao InMundo)
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Leitura externa:
Ontoanálise: O encontro entre o Ser e a Mente Moderna
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