Muitas pessoas dizem que gostam de ficar sozinhas. Gostam, desde que exista algum ruído por perto. Um vídeo ligado, uma música de fundo, o celular à mão, algo que ocupe a mente. O problema não é a solidão. É o silêncio.
Quando tudo cala, surge inquietação. Um desconforto difícil de explicar. A vontade imediata de se distrair aparece quase sem perceber. Por isso, o silêncio costuma ser evitado. Não por falta de tempo, mas por medo do que pode surgir quando não há mais distração.
Este texto fala exatamente sobre isso: o medo de ficar em silêncio consigo mesmo, algo comum, cotidiano e raramente reconhecido.
Por que o silêncio assusta?
Durante o dia, a mente permanece ocupada com tarefas, cobranças, conversas e informações. Esse movimento constante cria uma sensação de controle. Quando tudo para, o controle enfraquece, e a pessoa se vê diante de si mesma, sem mediação.
É nesse momento que surgem impulsos automáticos:
- pegar o celular;
- ligar algo para “fazer companhia”;
- ocupar o tempo com qualquer coisa.
O silêncio não cria problemas. Ele apenas remove o barulho que os mantinha encobertos. É por isso que incomoda.
O que aparece quando tudo cala?
Quando o silêncio se instala, não surgem grandes revelações. O que aparece costuma ser simples, mas difícil de sustentar, por exemplo:
- Cansaço acumulado;
- Pensamentos repetitivos;
- Insatisfação mal definida;
- Sensação de estar vivendo no automático;
- Incômodos que foram adiados.
Nada disto é novo, pois estes conteúdos estavam antes ali. Apenas não tinham espaço para aparecer. Enquanto o dia está cheio, ficam no fundo. Quando tudo cala, vêm à tona.
Por isso, muitas pessoas preferem o barulho. Não porque gostam, mas porque ainda não sabem lidar com o que surge no silêncio.
Quando evitar o silêncio vira um padrão
Evitar o silêncio, aos poucos, deixa de ser escolha e vira hábito. A pessoa se mantém sempre ocupada, conectada, disponível. Até o descanso vira distração. Com o tempo, esse padrão cobra um preço.
Alguns sinais comuns:
- dificuldade de ficar sozinho sem recorrer ao celular;
- incômodo ao parar, mesmo sem urgência real;
- mente inquieta sempre que não há estímulo externo;
- sensação de vazio ou tédio ao final do dia;
- cansaço que não melhora, mesmo com descanso.
A vida segue ativa, mas a presença diminui. O contato consigo se torna cada vez mais distante.
Como resolver?
Exercício de 3 minutos
Falar sobre silêncio costuma parecer abstrato, distante ou até inviável para quem vive em ritmo acelerado. Por isso, antes de pensar em mudanças maiores, é importante começar de forma concreta e possível. O objetivo aqui não é “aprender a silenciar”, mas criar um primeiro contato com o que surge quando o barulho diminui.
Não é necessário começar com longos períodos de silêncio. O que faz diferença é a constância, não a intensidade. Experimente este exercício simples, sem expectativa de relaxar ou “sentir algo bom”:
- Sente-se em um lugar confortável;
- Afaste o celular;
- Fique em silêncio por 3 minutos;
- Não tente organizar pensamentos;
- Apenas observe o que surge.
Se vier inquietação, observe.
Se vier vontade de sair, observe.
E se vier pensamento repetitivo, apenas observe.
O exercício não é para acalmar a mente, mas para perceber.
Perceber já é um primeiro passo de reorganização.
Como transformar silêncio em alívio
O silêncio deixa de ser ameaça quando deixa de ser tratado como prova de resistência. Logo, ele se transforma em alívio quando passa a ser visto como espaço.
Espaço para:
- perceber limites antes de chegar ao esgotamento;
- reconhecer cansaços antes de adoecer;
- encerrar o dia sem carregar tudo para dentro;
- retomar contato consigo mesmo.
Silêncio não é ficar sozinho com problemas, mas sim, ficar consigo sem distração.
Quando isso se torna hábito, algo muda. A mente desacelera não por força, mas porque não precisa mais vigiar o tempo todo. O corpo entende que não há perigo em parar.
Conclusão
Por fim, o medo de ficar em silêncio consigo mesmo não é fraqueza. É sinal de que houve pouco espaço interno por tempo demais. O barulho constante foi uma estratégia de adaptação, não uma escolha consciente.
Aprender a ficar em silêncio não é se afastar da vida. É voltar a habitá-la por dentro. Aos poucos, o silêncio deixa de assustar e passa a sustentar. E, quando isso acontece, o alívio não vem de fora. Vem do fato simples de não precisar fugir de si.
Renata Nascimento – Ontoanalista em Formação
(Do InMente ao InMundo)
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