Existe um tipo de cansaço que não passa com um banho quente, uma noite de sono ou um final de semana mais tranquilo. É o cansaço acumulado, profundo, silencioso, ou seja, aquele que nasce no trabalho e vai tomando espaço dentro da gente até se tornar impossível.

Muita gente sente isso todos os dias: acordar esgotado, trabalhar sob pressão constante, viver com a sensação de que nunca é suficiente. A nova atualização da NR-1, a norma que trata da saúde e segurança no trabalho no Brasil, fala exatamente sobre isso. Pela primeira vez, a legislação reconhece o sofrimento emocional causado pelo ambiente de trabalho. Entende que é um risco real, que precisa ser prevenido e tratado como parte da saúde ocupacional.

O que a NR-1 muda na prática para quem está cansado demais

A nova regra determina que empresas precisam identificar riscos psicossociais — ambientes hostis, metas impossíveis, sobrecarga de demandas, assédio velado, clima tenso, exigências desconectadas da realidade e tudo aquilo que afeta diretamente a saúde mental.

Isso significa que aquilo que você sente não é exagero, nem drama. A própria lei reconhece que certos ambientes adoecem, e que esse adoecimento não pode mais ser ignorado.

Portanto, não é sobre colocar psicólogo na empresa ou fazer campanhas motivacionais vazias. É sobre reconhecer que certas formas de trabalhar quebram a mente, drenam a energia e transformam o dia a dia num campo de tensão permanente.

Por que você se sente tão pressionado?

A maioria das pessoas não sabe explicar por que está tão cansada. Às vezes, é a soma de pequenas coisas: um chefe que fala alto, uma equipe que vive correndo, uma cultura onde ninguém respira, uma expectativa de estar sempre disponível, sempre produzindo, sempre forte.

Outras vezes, é mais interno: a dificuldade de dizer não, o medo de decepcionar, o hábito de assumir tudo sozinho, a sensação de que o seu valor depende da sua performance. O ambiente acelera isso, mas não é o único responsável. Ele desperta aquilo que está guardado dentro de você.

A NR-1 vem para equilibrar essa balança. Ela reconhece que o ambiente importa — e muito. Mas isso não anula o papel da sua própria consciência sobre o que você sente, o que você tolera e onde estão seus limites.

Sinais de que o trabalho ultrapassou a fronteira do saudável

Nem sempre você percebe de imediato, mas o corpo mostra sinais:

  • ansiedade antes de começar o dia,
  • tensão no peito ao abrir o e-mail,
  • sono inquieto,
  • irritabilidade sem motivo,
  • sensação de estar vivendo no automático,
  • falta de vontade em tarefas simples.

Esses sinais são formas de pedir ajuda, mesmo quando você insiste em continuar. É o seu corpo tentando avisar que a forma como você está vivendo não é sustentável.

O que fazer quando você percebe que está chegando no limite?

A NR-1 não resolve tudo por si só, mas ela abre um caminho. Ela diz que o ambiente tem responsabilidade — e isso já muda muita coisa. Ainda assim, há movimentos que você pode fazer agora:

Respire fundo antes de reagir.
Coloque limites pequenos, mas reais.
Não tente resolver tudo sozinho.
Converse com alguém de confiança.
Nomeie o que está acontecendo, por exemplo, cansaço, medo, pressão, exaustão.
Peça apoio quando necessário.
Reorganize o que for possível.
Diminua a expectativa de perfeição.

Você não precisa enfrentar o peso do mundo com a força do dia anterior. Pois a vida não é sobre suportar tudo; é sobre aprender a se posicionar diante do que te atravessa.

Conclusão – Você não está exagerando

Por fim, a mudança da NR-1 não veio para proteger empresas. Ela veio para proteger pessoas. Veio para dizer que saúde mental importa, que ambientes desrespeitosos têm consequência e que ninguém deveria adoecer para manter um emprego.

O seu cansaço tem história. O seu corpo tem memória. E o que você sente tem legitimidade. Olhar para isso não é fraqueza, mas sim, maturidade. Portanto, o começo de um caminho mais consciente, mais leve e mais honesto com você mesmo.

Você importa e sua saúde importa.


Renata Nascimento – Ontoanalista em Formação



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Leitura externa:

Saúde Mental no Trabalho e NR-1: Como os Riscos Psicossociais Revelam os Conflitos do Ser?


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