Você dorme mais, tenta parar, diminui o ritmo quando pode…
E, ainda assim, acorda cansada.
Não é aquele cansaço físico que melhora com uma boa noite de sono. É um desgaste mais fundo, difícil de explicar. Uma sensação de que algo em você não se recompõe totalmente, mesmo quando o corpo descansa.
Se isso soa familiar, talvez o problema não seja falta de descanso — mas falta de encaixe interno.
Quando o descanso não recupera
Existe um tipo de cansaço que o descanso resolve.
E existe outro que não.
Você pode tirar folga, passar um fim de semana mais leve, reduzir compromissos… e, ainda assim, sentir que não voltou inteira. O corpo até pausa, mas a mente continua em alerta. O coração segue pesado. A sensação de “ter que dar conta” não se apaga.
Esse é um sinal importante: não é exaustão física, é desorganização interna.
Quando descansamos apenas do lado de fora — da agenda, das tarefas, das demandas — mas não conseguimos descansar por dentro, algo continua consumindo energia.
E geralmente esse algo é o afastamento de si mesma.
A sensação de desencaixe
Muitas pessoas descrevem esse estado como:
- “parece que estou fora do lugar”
- “nada está exatamente errado, mas também nada está certo”
- “estou funcionando, mas não estou bem”
É o desencaixe silencioso.
Você segue fazendo o que precisa ser feito, mas sem sentir presença. Vive no automático. Executa, responde, resolve — mas não se reconhece totalmente no que está vivendo.
Quando isso acontece, o descanso vira apenas uma pausa entre dois esforços. Não vira recuperação, porque o problema não é o excesso de fazer, e sim a perda de conexão com o próprio eixo.
Descansar não resolve quando a vida está sendo vivida longe de si.
Sinais de que você pode ter perdido o eixo
A perda de eixo não acontece de forma brusca. Ela se instala aos poucos, nos detalhes do dia a dia. Alguns sinais comuns:
- você descansa, mas continua cansada;
- sente dificuldade de se animar, mesmo com coisas que antes gostava;
- tudo parece exigir esforço;
- você se sente “ligada” o tempo todo, mesmo quando tenta parar;
- há uma sensação constante de cobrança interna;
- o corpo funciona, mas a vitalidade diminuiu;
- decisões simples cansam mais do que deveriam.
Nada disso significa fraqueza. Pelo contrário: muitas vezes aparece justamente em pessoas responsáveis, comprometidas, que aprenderam a sustentar tudo sozinhas.
O problema é que sustentar tudo sem se sustentar por dentro cobra um preço.
Descanso não é só parar — é voltar
Descansar não deveria ser apenas interromper tarefas.
Deveria ser um movimento de retorno.
Retorno à própria sensação.
Retorno ao próprio ritmo.
Retorno ao que faz sentido para você — e não apenas ao que é esperado.
Quando esse retorno não acontece, o corpo até pausa, mas a mente segue distante. É como sair de um lugar barulhento sem realmente encontrar silêncio.
Por isso, às vezes, você descansa mais e se sente ainda mais estranha. O descanso revela o desencaixe que a correria escondia.
Pequenos retornos ao centro (sem mudar tudo)
Voltar ao centro não exige grandes decisões imediatas. Não é sobre largar tudo ou mudar a vida de uma vez. É sobre micro movimentos de reconexão, possíveis no cotidiano.
Alguns exemplos simples:
- perguntar-se como está, de verdade, sem responder no automático;
- perceber quando está funcionando no modo “obrigação” e pausar por alguns minutos;
- diminuir o ritmo interno antes de diminuir a agenda;
- respirar conscientemente antes de responder ou decidir;
- aceitar que nem todo cansaço se resolve com descanso físico.
Esses pequenos retornos não resolvem tudo de uma vez, mas começam a reorganizar o eixo. Eles sinalizam ao corpo e à mente que você está voltando a se habitar.
E quando isso acontece, algo muda:
o descanso começa a funcionar de novo.
Conclusão: talvez você não precise descansar mais — mas se reencontrar
Se descansar não está sendo suficiente, talvez o que você precise não seja parar mais, mas voltar para si.
O cansaço que não passa costuma ser um pedido silencioso de realinhamento. Não é o corpo pedindo férias. É a vida pedindo presença.
E presença não se constrói com esforço, mas com honestidade interna.
Aos poucos, quando você começa a se escutar de novo, o descanso deixa de ser fuga e volta a ser reparação.
Não porque tudo ficou fácil — mas porque você voltou a estar no centro da própria vida.
Renata Nascimento – Ontoanalista em Formação
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