Há um tipo específico de sofrimento moderno que não aparece nos diagnósticos clássicos, mas atravessa silenciosamente a vida de muitas pessoas: a sensação de que o tempo não está funcionando a seu favor. Não se trata apenas de pressa ou ansiedade. Trata-se de uma vivência mais profunda — a impressão de que a própria existência ficou fora de sincronia.
A pessoa trabalha, decide, se movimenta, mas sente que algo essencial não acompanha. É como se a vida estivesse sempre alguns passos à frente, enquanto ela corre tentando alcançar um ritmo que nunca se estabiliza. Na Ontoanálise, essa experiência não é lida como atraso cronológico, mas como ruptura entre o ser e o tempo vivido.
O tempo não é apenas relógio — é vivência
Do ponto de vista ontológico, o tempo não é apenas uma sucessão de horas, anos ou marcos sociais. O tempo é, прежде de tudo, experiência interna de sentido. Quando essa experiência se rompe, o sujeito pode até avançar externamente, mas perde a sensação de continuidade existencial.
É nesse ponto que surge a vivência do “estou atrasado”, mesmo sem evidências objetivas claras. O problema não está no calendário, mas na forma como o sujeito está habitando o próprio tempo.
Quando o ser perde contato com seu ritmo interno, o tempo deixa de ser caminho e passa a ser cobrança.
A confusão moderna entre tempo, desempenho e valor
Um dos fatores centrais dessa ruptura é a fusão equivocada entre tempo e valor pessoal. Na lógica contemporânea, o tempo se transforma em métrica de desempenho: quem avança mais rápido “vale mais”, quem pausa “fica para trás”.
Essa lógica invade a subjetividade e cria um efeito perverso: a pessoa deixa de viver o próprio processo e passa a se observar de fora, como se estivesse sempre sendo avaliada. O resultado é um estado contínuo de comparação, onde o tempo do outro se torna referência absoluta.
Na Ontoanálise, esse fenômeno é compreendido como deslocamento do eixo ontológico: o ser deixa de se orientar por dentro e passa a se regular por expectativas externas. Quando isso acontece, o tempo deixa de ser vivido e passa a ser medido.
Quando há movimento, mas não há travessia
Um sinal claro desse desalinhamento é a sensação de muito esforço com pouco avanço subjetivo. A pessoa faz, entrega, cumpre — mas não sente travessia. Falta a percepção de passagem de uma etapa a outra.
Ontologicamente, isso ocorre quando o agir não está integrado ao sentido. Há ação, mas não há incorporação. O sujeito se movimenta, mas não se reconhece no movimento. É como atravessar paisagens sem jamais se sentir presente nelas.
Nesse estado, o tempo se fragmenta. O passado vira cobrança, o futuro vira ansiedade, e o presente se esvazia. É justamente aí que nasce a sensação persistente de estar atrasado.
O atraso como sintoma de desencontro com o próprio tempo
Na perspectiva da Ontoanálise, o “atraso” não é um problema em si, mas um sintoma existencial. Ele aponta para um desencontro entre três instâncias:
- o tempo que o sujeito vive,
- o tempo que ele acredita que deveria viver,
- e o tempo que o mundo exige que ele viva.
Quando essas três dimensões entram em conflito, o ser perde estabilidade. Surge então a pressa sem direção, a culpa sem causa clara e a sensação de que a vida está sempre em débito.
Reorganizar a vida, nesse contexto, não é acelerar processos, mas restaurar a unidade entre ser e tempo.
Reorganizar o tempo começa por restaurar o eixo
A restauração não começa na agenda, mas na consciência. O primeiro movimento é reconhecer que cada fase da vida possui um ritmo ontológico próprio. Forçar a passagem de uma fase para outra não gera amadurecimento — gera ruptura.
Quando o sujeito recupera o eixo interno, algo muda de forma silenciosa: o tempo deixa de pressionar e volta a sustentar. Mesmo desafios permanecem, mas já não são vividos como atraso — são vividos como processo.
Na Ontoanálise, esse retorno ao eixo é o momento em que o ser volta a habitar o próprio caminho, em vez de correr atrás de um tempo que nunca foi seu.
Conclusão
A sensação de estar atrasado não fala sobre incompetência, fracasso ou falta de esforço. Ela fala sobre um desencontro mais profundo: o afastamento entre o ser e o tempo vivido.
Enquanto esse desencontro persiste, nenhum avanço externo é suficiente. Mas quando o eixo retorna, o tempo se reorganiza por dentro — e aquilo que antes parecia atraso passa a ser compreendido como travessia.
Porque, no fim, a vida não exige velocidade. Ela exige presença. E quando o ser volta a habitar o próprio tempo, o caminho deixa de ser uma corrida — e volta a ser existência.
Renata Nascimento – Ontoanalista em Formação
(Do InMente ao InMundo)
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