Há pessoas que não estão em crise no sentido clássico da palavra. O trabalho funciona, o salário entra, as contas estão em dia. Por fora, tudo parece certo, porém por dentro, algo incomoda.
É uma sensação difícil de explicar, mas muito comum: sua vida virou só trabalho. Você não está exatamente infeliz, mas também não está inteiro. Com o tempo, isto começa a pesar.
A sensação de existir só para produzir
O dia começa antes mesmo de você levantar da cama. A mente já está listando tarefas, prazos, mensagens, pendências. Durante o dia, tudo gira em torno de resolver, entregar, responder. E quando finalmente sobra tempo… algo estranho acontece.
Você não descansa de verdade. Fica inquieto, sem saber muito bem o que fazer. Logo, é comum declarações, como:
- “Minha vida virou trabalho”,
- “Tudo gira em torno de desempenho”,
- “Não sei quem sou sem meu trabalho”,
- “Só me sinto útil quando estou produzindo”,
- “Quando paro, fico ansioso.”
O problema não é trabalhar muito, mas sim, não existir fora do trabalho.
Quando tudo dá certo, mas você vai ficando vazio
Esse tipo de desgaste não aparece como colapso. Ele é silencioso, progressivo e socialmente aceito. Você continua funcionando, entregando, e é visto como responsável, forte, confiável. Mas algo vai ficando para trás: a vida pessoal perde espaço, os interesses diminuem, o prazer fica condicionado a resultados.
E, aos poucos, a sensação de viver é substituída pela sensação de “dar conta”.
Neste momento é possivel perceber e se atentar a alguns sinais, por exemplo:
- você só se sente válida(o) quando está ocupada(o);
- descansar gera culpa;
- o fim de semana causa ansiedade;
- o silêncio incomoda;
- tudo vira tarefa ou projeto;
- sua identidade ficou colada ao que você faz;
- conversar sem falar de trabalho parece estranho.
Nada disso costuma ser chamado de problema. É funcional. É elogiado.
Mas cobra caro por dentro.
Quando desempenho vira identidade
O trabalho começa como uma parte da vida. Com o tempo, ele vira o centro. Você deixa de dizer “eu trabalho com isso” e passa a viver como se fosse apenas aquilo que entrega.
Quando isso acontece:
- errar parece falha pessoal;
- diminuir o ritmo parece risco;
- dizer “não” parece irresponsabilidade;
- descansar parece preguiça.
Não porque você seja fraco, mas porque seu valor ficou amarrado ao desempenho. Quando a medida do “quem eu sou” passa a ser “o quanto eu produzo”, qualquer pausa vira ameaça.
Pequenos resgates de si (sem largar tudo)
Você não precisa abandonar sua carreira nem fazer mudanças radicais. O resgate começa em gestos pequenos, mas consistentes. Alguns exemplos possíveis:
- criar um tempo que não tenha objetivo produtivo;
- fazer algo sem transformar em desempenho;
- separar, conscientemente, quem você é do que você faz;
- permitir-se existir sem entregar nada por alguns minutos do dia.
Esses movimentos devolvem algo essencial: espaço interno. É nesse espaço que você volta a se sentir pessoa, não só função.
Limites possíveis sem abrir mão da vida profissional
Criar limites não é largar responsabilidades. É impedir que elas ocupem tudo. Limites simples e possíveis:
- definir um horário real de encerramento do dia;
- não responder tudo imediatamente;
- não transformar todo descanso em “tempo útil”;
- aceitar dias normais, sem alta performance.
A vida não precisa girar só em torno de trabalho para funcionar. Ela precisa de ritmo, não de exaustão constante.
Conclusão: trabalhar não deveria custar quem você é
Por fim, se você sente que sua vida virou só trabalho, isso não significa fracasso. Significa que algo importante está pedindo ajuste. O trabalho pode ser relevante. Pode ser fonte de realização, mas não pode ser o único lugar onde você existe.
Você não precisa deixar de ser competente para voltar a ser inteiro, mas, apenas lembrar que você vale mais do que aquilo que entrega. Quando essa lembrança volta, algo muda: o cansaço diminui, o vazio perde força, e a vida começa, aos poucos, a caber novamente dentro de você.
Renata Nascimento – Ontoanalista em Formação
(Do InMente ao InMundo)
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